Antes de explicar as escolhas políticas, é preciso escutar as pessoas, defende pesquisadora do INCT-InEAC, Kátia Mello

08 | 10 | 2026

Diante dos resultados das eleições de 2026, marcados pelo protagonismo da direita, com Flávio Bolsonaro (PL) em primeiro lugar no primeiro turno, à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a antropóloga e pesquisadora do INCT-InEAC Kátia Mello escreveu artigo para o Jornal GGN em que propõe uma reflexão sobre o que as escolhas políticas expressam e sobre o que ainda não conseguimos compreender a partir delas.

Pertencer é uma das chaves da reflexão da antropóloga. Kátia chama atenção para o fato de que as pessoas não querem apenas o remédio, a escola, o emprego, melhores salários ou a universidade para os filhos. Elas também querem “ser reconhecidas, pertencer a alguma coisa, compartilhar valores, encontrar lugares nos quais sua experiência possa ser narrada e adquirir sentido”.

A autora relaciona essa busca por pertencimento à presença cotidiana do pentecostalismo nos territórios populares, destacando o papel das igrejas na produção de redes de cuidado, sociabilidade, moralidades e formas de interpretar a experiência. Sua reflexão amplia, assim, a compreensão sobre o que mobiliza as escolhas políticas: além das condições materiais de vida, existem vínculos, valores e formas de pertencimento que também ajudam as pessoas a atribuir sentido ao mundo.

A antropóloga também insiste que é preciso “levar as pessoas a sério”. Para a autora, isso significa reconhecer que aquilo que as pessoas dizem, sentem, desejam e imaginam sobre suas próprias vidas constitui conhecimento sobre o mundo em que vivem. Não se trata de concordar com elas ou de tomar seus enunciados como verdades, mas de evitar que suas escolhas sejam explicadas antecipadamente a partir de ideias sobre o que seria melhor ou mais importante para suas próprias vidas. Em vez de perguntar por que alguém teria votado “contra seus próprios interesses”, Kátia propõe suspender a certeza sobre quais seriam esses interesses e compreender como palavras como família, segurança, autoridade, respeito, proteção, religião e futuro são significadas por aqueles que as vivem.

A provocação que permanece é a de que talvez seja necessário começar menos pela certeza de que sabemos antecipadamente aquilo de que as pessoas precisam e mais pela disposição de compreender, junto com elas, o que estão dizendo por meio de suas escolhas políticas.

Leia a reflexão completa no artigo publicado na coluna do INCT-InEAC no GGN.

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