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Segunda, 25 Maio 2020 19:28

A Mitomania

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O nosso site reproduz aqui o artigo "A Mitomania ", do sociólogo Rodrigo Azevedo, professor da Escola de Direito da PUCRS e pesquisador vinculado ao INCT INEAC.

 

A Mitomania (por Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo)

 
Bolsonaro desrespeitou regras de distanciamento social mais uma vez neste fim de semana. (Reprodução/TV Globo)
 

Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo (*)

Vivendo um momento de quase pico da pandemia de coronavírus, em que se torna o epicentro mundial da doença, e com perspectiva de avançar além das 100 mil mortes daqui a 60 dias se nada for feito, o Brasil vive inebriado por um conflito criado em torno de um movimento que até pouco tempo se podia chamar de Bolsonarismo, mas que agora, com tudo o que se sabe nas últimas semanas, desde o início da pandemia, a demissão de Mandeta e a ruptura de Sérgio Moro, é melhor designado como “Mitomania”.

 
 

No mundo da pós-verdade, a compulsão pela mentira ganha novos contornos, viabilizados pela construção de um universo paralelo, através de uma narrativa, como faz o chamado “gabinete do ódio”. Quando se torna uma mania, a mentira tem como objetivo a autoproteção através do falseamento da realidade. É um tipo de adoecimento psíquico, em que a pessoa sobrevive alimentando mentiras que elevam a importância do autor, das suas realizações, ou para tentar encobrir algo.

Jair Bolsonaro transitou durante 30 anos, como deputado, pelo submundo da política. Nunca tendo apresentado projeto importante ou tomado alguma iniciativa relevante na Câmara, Bolsonaro construiu uma carreira política representando os interesses de grupos de policiais militares e militares aposentados e em lutas corporativas, e estruturando uma rede de apoio nas favelas controladas por milícias armadas. O filho mais velho, o senador Flávio, é o ponto de contato com a rede miliciana, conforme mostram suas relações com Queiroz e companhia. O 02, Carluxo, vereador no Rio de Janeiro, é o especialista em redes na internet, que permite a conexão de tudo que é tipo de lixo neonazista, grupos de extrema-direita, masculinistas, incels, trazendo para o Brasil um tipo de militância “conservadora”, que pode se conectar com as milícias e constituir uma ideologia para grupos armados controlando território ou fluxos de capital via mercados ilegais ou operações ilícitas não controladas pelas instituições. O 03, Eduardo, fez seu caminho ingressando como agente na Polícia Federal, e desenvolvendo, como o pai, um tipo de proselitismo político que junta interesses corporativos com uma ideologia Olavista e populista, que tem como inimigo o globalismo comunista, e articula o medo social da criminalidade com o conservadorismo moral e a defesa de uma política ultraliberal para a economia, chegando a deputado federal.

Estes três vetores conectam Bolsonaro a um momento internacional de crescimento de uma nova direita, com Trump nos EUA, Erdogan na Hungria, Putin na Rússia, entre vários outros, que se caracterizam pela linha dura (pelo menos em teoria) contra a criminalidade violenta, leniência com o aparelhamento e apropriação privada de recursos públicos de forma seletiva, somente para seus aliados, e dilapidação das regras de convivência, legais e costumeiras, na relação do governante com as instituições, apresentando-se como contraponto a um governante preocupado com os interesses e a vontade do povo.

Um outro elemento quase sempre presente é o do estabelecimento de um vínculo importante entre o governo e as Forças Armadas, que acabam deixando seu papel de garantidores da soberania por sobre as disputas políticas internas, sobre as quais não deveriam se posicionar, diante do parlamento e do judiciário, instâncias de soberania popular e divisão de poderes que não dispõem de armas.

Quando chega a pandemia, há dúvida e dificuldade para se posicionar, diante do risco à saúde e da possibilidade de queda econômica abrupta. Aos poucos se constitui um consenso internacional, em torno da OMS e a partir dos resultados da forma como a pandemia foi conduzida na China, onde surgiu, e em alguns outros países, e dos problemas ocorridos na Europa, primeiro na Itália, depois na Espanha, Inglaterra, França, como os mais afetados e tendo iniciado tardiamente a política de isolamento ou distanciamento social.

No Brasil, enquanto Bolsonaro exerce sua compulsão à mentira, afirmando que era uma “gripezinha” sem maiores consequências, o Ministro Mandetta se conecta com o debate mundial e sustenta a necessidade de isolamento e monitoramento da pandemia, para não sobrecarregar o sistema de saúde e reduzir a curva de contágio. A duras penas, e com apoio dos governadores da grande maioria dos estados e com os prefeitos das capitais, assim como da Rede Globo, do Congresso e do STF, Mandetta obtém resultados importantes na condução da pandemia, achatando a curva de crescimento durante o mês de março, no final do qual é demitido, por se opor à política de “imunização da manada” defendida pelo Presidente.

Incentivo a aglomerações sociais, defesa da abertura inclusive de escolas, e minimização das possíveis mortes, são defendidos diariamente em coletivas, lives e aglomerações, tentando convencer a sociedade de que ele, o mito, é o único preocupado com a renda das pessoas, enquanto que todos os demais embarcaram em uma fraude contra ele, para derrubá-lo. O mundo construído em torno de fake news como as mamadeiras de piroca e o avanço do comunismo chinês pode ser uma narrativa convincente, mas como é irreal, acaba afetando a capacidade de leitura do cenário, para entender a importância do Estado para a contenção da doença em uma sociedade desorganizada como a brasileira.

Para justificar suas posições, Bolsonaro vai buscar auxílio de um outro mitômano, o deputado gaúcho Osmar Terra. Sustentando conhecimento como médico e gestor na área da saúde, Osmar é menos esperto, e logo cai em descrédito, ao afirmar que a pandemia iria matar pouco mais do que 2 mil pessoas, como outras viroses anteriores, e que a Suécia seria um exemplo de sucesso, ao não adotar o isolamento, coisa que também não se confirmou. Mas continua sendo o conselheiro médico para assuntos de pandemia. E ainda houve o episódio Teich, que no meio da tormenta queria colocar no currículo a passagem pela gestão federal da saúde, mas se deu conta em seguida da loucura que fizera, o que fica claro pela sua expressão, na fatídica reunião do dia 22 de abril, e logo em seguida se demite por não aceitar adotar a cloroquina como medicação na rede pública de forma generalizada, sem que haja comprovação da sua eficácia.

Reunião que sela o destino do ministro Sérgio Moro, pois teve como principal ponto de pauta colocá-lo na parede para que trocasse o superintendente da Polícia Federal do Rio de Janeiro, para proteção de seus filhos e amigos. Junto com isso, graças ao ministro Celso de Mello, que agiu bem ao oferecer à Nação o retrato acabado do atual governante e de seus principais assessores na empreitada de governar o país, ficamos sabendo que a defesa de liberação maciça de armamento para a população civil, concretizada por meio de uma portaria interministerial publicada no dia seguinte à reunião e assinada por Sérgio Moro, ainda ministro, e o ministro da Defesa Fernando Azevedo e Silva, não tinha por objetivo a defesa dos chamados cidadãos de bem contra o crime, e sim a resistência armada contra prefeitos, governadores e juízes pelo país que se oponham às ordens do governo federal.

Ou seja, o chefe máximo da nação implementa política tendente à disseminação de armamento e munição pelo país, com objetivos políticos de ameaça a poderes do Estado e com consequências imprevisíveis.

A reunião e tudo o que foi dito, corroboram os diálogos apresentados por Moro, antes e depois da reunião, onde a pressão do Presidente para interferir na independência da PF é evidente. Para sustentar sua versão, construída depois de ver várias vezes a fita, Bolsonaro busca o apoio de seus ministros militares, que apresentam como salvo-conduto sua condição de militares para sustentarem que o alvo de Bolsonaro não era a PF, e sim o Gabinete de Segurança Institucional, dirigido pelo mais aloprado dos generais no governo, Augusto Heleno, famoso pelas estripulias realizadas no Haiti a frente da Força da ONU para pacificação do país, e por ter sido assessor de Silvio Frota durante a ditadura militar, o general que resistiu à abertura mas perdeu a disputa para Geisel.

Militares nem sempre falam a verdade, e justificam isso pelos interesses nacionais em jogo. Isso fica claro, por exemplo, no famoso caso Dreyfuss, ocorrido na França, recentemente refilmado de forma brilhante por Roman Polansky. Naquele episódio, que moldou a República francesa, a cúpula do exército francês leva à condenação por traição de um capitão, de origem judia, por perseguição pessoal, e é desmascarada e exposta publicamente por Emille Zola no famoso manifesto J’Accuse. No caso brasileiro, o problema para os generais é ter que rebaixar sua integridade moral para sustentar a versão de um mitômano, acostumado à mentira e ao submundo das fake news, mas agora exposto ao público pela extrema gravidade do momento para o país.

Quando batemos na casa das 22 mil mortes, mantendo um padrão de crescimento diferente da maioria dos países que achataram a curva e já começam a abrir a economia com maior segurança, a sociedade se dá conta que não há condução política para a crise. Que para alguns ministros a pandemia aparece como oportunidade para prender ministros do STF (Weintraub), prefeitos e governadores (Damaris), passar de baciada um conjunto de propostas de desestruturação do sistema de proteção ambiental (Salles), enquanto a mídia e a sociedade discutem a pandemia e velam seus mortos.

Dessa forma, os prefeitos e governadores que conseguiram levar adiante políticas de controle da pandemia, muitas vezes sob forte pressão do empresariado local, mas preservando vidas, são ameaçados de prisão.

Depois da reunião vir a público, reforçando, junto com as demais provas já colhidas, a tentativa de aparelhamento da PF para autoproteção, e com mais os agravantes de crimes de responsabilidade e de contraposição do governo à Constituição Federal, os caminhos vão se fechando para Bolsonaro. Por isso mesmo, a aposta é na mobilização de seus fanáticos defensores, que não são poucos, influenciam ainda em torno de 20% do eleitorado, e tem presença marcante entre os adeptos das igrejas neopentecostais, e entre grupos de policiais e suas famílias, encorajados pelo discurso linha dura contra o crime. No caso dos militares, a cooptação se dá principalmente por oficiais da reserva, que vêem no governo uma perspectiva de enfrentamento à esfera política e ao judiciário, vistos como corruptos e desconectados dos interesses do povo, e também de ocupação de cargos e de um novo protagonismo.

Também pequenos e médios empresários são seduzidos pelo capitão até agora, acreditando nas promessas de Paulo Guedes de crescimento econômico por meio das reformas liberalizantes, agora inviabilizadas, e não preocupados com a sua fala na reunião de que o governo deveria apoiar somente os grandes na pandemia, pela perspectiva de retorno financeiro, deixando os pequenos e médios de lado.

O cerco se fecha, e a postura de Mourão na reunião, calado como Moro, o mantém na reserva para o caso do impedimento do capitão, já expulso uma vez das forças armadas. Mourão já deixou claro aos defensores de Bolsonaro que professa os mesmos ideais, e inclusive se colocou na defesa do Presidente, mostrando uma fidelidade que pode ser compensada em apoio no caso da cassação do Presidente. Cassação essa que tem já todos os motivos acima explicitados, um amplo consenso no meio jurídico, com honrosas exceções como Ives Gandra, que sustenta a constitucionalidade da intervenção militar sobre os demais poderes.

É evidente a prática de crimes de responsabilidade e a total incompatibilidade de Bolsonaro com a gestão do país em meio a uma pandemia, que pode ser responsabilizado não só no Brasil como no Tribunal Penal Internacional, caso as instituições locais não tomem as devidas providências diante de sua conduta, promovendo aglomerações, colocando a população contra as instâncias locais e estaduais de governo, espalhando mentiras por redes sociais e obrigando seu ministro interino, que promoveu a militarização do ministério da Saúde, a editar portaria incluindo a cloroquina como medicação indicado no início da doença, sem que haja comprovação científica de sua eficácia, mas com comprovação dos malefícios causados pelos efeitos colaterais. E somando a isso a orientação de governo para avançar sobre os territórios indígenas, obrigado-os à aculturação, e o desmantelamento ilegal das instituições de controle da Amazônia e de todo patrimônio ambiental do país, são motivos que deixam a cassação de Collor e Dilma como casos de pouca importância.

O país segue rumo ao título de maior mortalidade em termos mundiais, em números absolutos, se mantiver a atual taxa de evolução da doença. Pode chegar também em números relativos, de óbitos por milhão de habitantes. Por outro lado, é possivelmente um dos mais afetados pela desvalorização da moeda e redução da atividade econômica, afetada na cadeia frigorífica e outras cadeias industriais, no comércio, no setor de serviços, no turismo, e em outras áreas importantes, e tendo fronteiras fechadas para outros países. Nesse contexto, sabemos agora que o que preocupa Bolsonaro é como livrar os filhos e amigos de seus problemas com a justiça, e como promover a batalha cultural contra inimigos imaginários e a favor do amigo americano, com a ameaça das armas. Num mundo multipolar, e onde a China é responsável por grande parte do superávit comercial brasileiro, e as potências europeias tem cada vez mais preocupações sanitárias e com a proteção ambiental, ter um chanceler como Araújo é de fato um azar incalculável.

Para se manter até aqui, Bolsonaro construiu uma máquina de produção de narrativas, que recortam seus atos em reuniões de apoiadores, reuniões ministeriais ou lives na internet, e disseminam via redes sociais. Constroem com isso uma rede de defensores de tudo o que Bolsonaro faz e de ataque a todo os adversários considerados mais perigosos no momento, tendo o PT e o comunismo como os grandes vilões, mas de fato direcionando seus ataques para a desarticulação do sistema de políticas públicas e controles institucionais construídos no Brasil a partir da Constituição de 88. Boa parte das informações que circulam são fake, mas se espalham e armam a militância com argumentos para sustentar o mito.

Elevando o tom nas últimas semanas, Bolsonaro avança no sentido de ameaçar as instituições, mobilizando para isso grupos de cidadãos radicalizados pelo discurso de que querem impedir a mudança social (seja ela qual for). Busca o apoio dos militares, e mobiliza as bases das polícias nos estados, prontos para sustentar uma insurreição pelo capitão, segundo acreditam. Seria uma inédita revolução do baixo clero, sem um programa que não seja o de destruição das estruturas institucionais da democracia liberal, para colocar no lugar uma espécie de governo de milícias populares, aptas a decidirem os conflitos pelas suas crenças e interesses, deixando de lado o arbitramento das leis e da justiça.

Quando a situação chega a esse ponto, é porque já se ultrapassaram algumas barreiras da institucionalidade democrática, como comprova o tratamento conferido por Bolsonaro a alguns governadores de estados como São Paulo e Rio de Janeiro, tratados como inimigos, embora representem dois dos estados mais importantes economicamente da federação. O papel das instituições, a partir de agora, é o de interdição da liderança que aposta no caminho da violência para afirmar suas posições, e com isso viabilizar sua trajetória no controle dos mecanismos de investigação criminal, de aparelhamento político das estruturas de inteligência estatal e paraestatal e de submissão das Forças Armadas aos interesses particulares do governante, do qual se tornaram sócias. Para sair desse imbróglio, é preciso que todos saibam onde estamos, e para onde podemos ir. O resto é só mitomania.

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