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Claúdio Salles

Claúdio Salles

Sexta, 28 Maio 2021 23:14

ROBERTA CORREA PRESENTE !

O Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos (INCT-InEAC) comunica que uma de suas jovens e mais promissoras pesquisadoras, Dra. Roberta Correa, faleceu vítima de Covid-19 esta noite. A Dra. Roberta era uma estrela ascendente no estudo das Religiões Afro-Brasileiras, tendo realizado sua tese de doutorado no PPGa da UFF. Em nome do comitê gestor do InEAC, lamentamos profundamente o ocorrido e nos unimos aos colegas, amigos e familiares no luto por essa perda irreparável, que se junta às outras inúmeras provocadas pelo descaso do governo federal na gestão da saúde pública brasileira.
 
Roberto Kant de Lima
Coordenador
 

CPI da Alerj discute intolerância religiosa no estado

 

Instalada no dia 18/5, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) de Combate à Intolerância Religiosa, da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), realizou nesta terça-feira (25/5) sua primeira audiência pública. Participaram do debate as pesquisadoras do Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos (INEAC/UFF) Ana Paula Miranda e Lana Lage.

Iniciando o debate, Ana Paula Miranda ressaltou a importância da CPI e traçou desafios.

“Essa ação é um primeiro passo, inovador. O Poder Público ainda patina nas respostas ao problema. Esse é o principal desafio desta CPI, que tem que estar atenta ao modo de atendimento às minorias, tanto nas delegacias quanto no poder Judiciário. Temos que pensar em um modo de escutar as vítimas que não cause revitimização. O que está em jogo é a negação a um modo de vida”, declarou.

Presidente da CPI, a deputada Martha Rocha (PDT) comentou a atuação de policiais nos casos de intolerância religiosa. "Eu já chefiei a Polícia Civil e sei das dificuldades. Os policiais não vêm de Marte ou de Vênus, o planeta do amor. Eles são fruto de uma sociedade intolerante", lamentou.

A professora Lana Lage falou sobre a formação histórica da polícia no país e seus reflexos na intolerância religiosa.

 "No Brasil, o Estado precedeu a nação. O Estado veio da côrte, da metrópole. A forma como a guarda nacional foi criada, surgindo como agente protetora do Estado, não da população, tem seus efeitos. A polícia está sempre a favor do Estado, e muitas vezes age como se a população fosse o inimigo", ponderou.
 Para a deputada Mônica Francisco (PSol), a questão transcende os casos de intolerância religiosa.
 
"As questões não são tão simplistas como parecem, em primeiro plano. Estamos diante de uma atualização, a partir de setores da sociedade que encontraram no Brasil um terreno propício, que quer reforçar o racismo no país. Estamos aqui, no país, diante de racismo religioso, não de intolerância, que é só um elemento presente nesse contexto", considerou.

Lana Lage concordou com a afirmação da deputada Mônica Francisco, apontando razões históricas para o racismo religioso.  

"Como pesquisadora, já escutei muitas falas que vinculam a agressão religiosa ao racismo, pois são religiões que vieram de África. O conceito de racismo religioso é um conceito esclarecedor", frisou.

 Obstáculo ao tráfico e à milícia

Ana Paula Miranda falou sobre o incômodo causado por terreiros de candomblé e de umbanda a traficantes e milicianos.

"Para explicar de uma forma didática, os terreiros funcionam como uma emergência de hospital. Eles têm um fluxo de pessoas muito diferente de uma igreja local. Há sempre gente chegando. Essa circulação de carros e gente desconhecida, nesses locais sob domínio de agentes armados, incomoda. Alguns terreiros foram expulsos e viraram ponto de venda de droga, outros foram destinados à especulação imobiliária", criticou.

 
 

Fonte: Alerj

 
 
 

A Associação Brasileira de Antropologia (ABA) realiza, no próximo dia 27 de maio,de 2021,  debate sobre os impactos da pandemia no trabalho de campo e discussão sobre o uso de ferramentas digitais no fazer etnográfico .  O Webinário conta com a participação de Jean Segata (UFRGS), coordenador da Rede Covid-19 Humanidades MCTI, Laura Graziela Gomes (UFF/INCT - INEAC), Letícia Cesarino (UFSC) e Eliane Tânia Freitas (UFRN), com a mediação de Ramon Reis e organização de Carolina Parreiras.

O webiníario  " Fazer etnográfico, ambientes digitais e tecnologias" acontece na quinta-feira, dia 27 de maio, às 16h, no canal do Youtube da TV Aba.

Link do evento: https://www.youtube.com/watch?v=Hyn4ojtZaPs 

 


O coordenador do INCT/INEAC, Roberto Kant de Lima, é o convidado da PPGS da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados) para aula inaugural "Desafios das ciências sociais no contexto atual", que acontecerá nessa quinta-feira,  27 de maio de 2021.

Além da participação como palestrante do Prof. Dr. Roberto Kant de Lima, também participarão o Prof. Dr Márcio Mucedula Aguiar (Coordenador do PPGS/UFGD) e o Prof. Dr. Marcelo Campos (UFGD/Pesquisador INCT/InEAC).

A atividade será online às 19:00 horas, horário de MS e 20:00h no horário de Brasília. O LEMI - Laboratório de Estudos Multimídias do INCT/INEAC transmitirá o evento. Para assistir acesse o canal do INCT INEAC ou o canal do Lamics.

As inscrições podem ser realizadas através do link: Inscrições: https://www.even3.com.br/ppgsufgd (Certificação de 2 h/a)

 Acompanhe o Lamics no instagram @capivarasociologica!

 

Na quarta-feira, dia 25 de maio, de 2021,  a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) realiza reunião da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar casos de intolerância religiosa no estado do Rio de Janeiro. A Comissão, presidida pela Deputa Estadual Martha Rocha (PDT) conta com a deputada Tia Ju (REP) para vice-presidente, além do deputado Átila Nunes (MDB) como relator e ainda a participação dos deputados Waldeck Carneiro (PT), Carlos Minc (PSB), Noel de Carvalho (PSDB), e pelas deputadas Dani Monteiro (Psol), Renata Souza (Psol), Monica Francisco (Psol) e Adriana Balthazar (NOVO). A antropóloga Ana Paula Mendes de Miranda e a historiadora Lana Lage, ambas pesquisadoras do INCT/INEAC foram convidadas para participarem do encontro.

Entre 2015 a 2019 foram registrados pela Polícia Civil cerca de 6.700 crimes por esse tipo de atitude. Em 2020, verificou-se 1.355 casos, segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP.)

A Revista Antropolítica lança nessa segunda-feira, dia 24 de maio, de 2021, às 20h, o dossiê "Direito em Perspectiva Empírica: Práticas, Saberes e Moralidades" . Para assistir acesse o canal do INCT/INEAC no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=sBhXm-CEub4
 
 
 
(1) AUDIÊNCIA DE CUSTÓDIA E VIOLÊNCIA POLICIAL: ANÁLISE DO ENCAMINHAMENTO DAS DENÚNCIAS EM DUAS GESTÕES NA CIDADE DE SÃO PAULO Giane Silvestre, Maria Gorete Marques de Jesus, Ana Luiza Villela de Viana Bandeira - ANA LUÍZA E GORETE CONFIRMARAM
 
(2)  OS MODELÕES E A MERA FORMALIDADE: PRODUÇÃO DE DECISÕES E SENTENÇAS EM UMA VARA CRIMINAL DA BAIXADA FLUMINENSE DO RIO DE JANEIRO - Marilha Gabriela Reverendo Garau
 
(3) MORALIDADES EM JOGO NO JULGAMENTO DE MULHERES ACUSADAS DA MORTE OU TENTATIVA DE MORTE DE SEUS/SUAS RECÉM-NASCIDOS/AS - Bruna Angotti 
 
(4) ENTRE JUSTAPOSIÇÕES E CONTRAPOSIÇÕES: INSTRUMENTOS JURÍDICOS, DISCURSOS E PRÁTICAS EM TORNO DA ADMINISTRAÇÃO DE HOMENS AUTORES DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONTRA A MULHER - Paulo Victor Leite Lopes 
 
(5) ENTRE DOCUMENTOS, INQUIRIÇÕES E INSPEÇÕES: A TRAMA DA PRODUÇÃO DE PROVAS EM PROCESSOS DE APOSENTADORIA RURAL NOS JUIZADOS ESPECIAIS FEDERAIS - Jordi Othon Angelo e Luís Roberto Cardoso de Oliveira 
 
(6) DO ACESSO AO SEGREDO AO (DES)ACESSO À JUSTIÇA: ALIENAÇÃO PARENTAL ENTRE MORALIDADES E TÉCNICAS EM DISPUTA - Rafaella Rodrigues Malta e Camila Silva Nicácio 
 
Outras informações confira no cartaz abaixo.

A Live da série "Conversas sobre História e Justiça", traz nessa quarta-feira, 19 de maio, de 2021, às 16h,  a participação da Profa. Dra. Lana Lage (InEAC/UFF) desenvolvendo o tema "O suspeito é o culpado: características do processo no Tribunal da Inquisição". A live terá a mediação da Profa. Dra. Patrícia Valim (UFBA).

Para assistir acesse o link https://www.youtube.com/watch?v=qeBQPR1ler0

 

A Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação (PROPPI) e a Agência de Inovação (AGIR) da Universidade Federal Fluminense (UFF) lançam o Edital de Chamamento e Registro de Experiências de Tecnologia Social de 2021.

O Edital está aberto para docentes, técnicos-administrativos e/ou alunos  apresentarem suas experiências de tecnologia social desenvolvidas no âmbito da UFF, visando o mapeamento, documentação e divulgação das informações, dando visibilidade às experiências desenvolvidas, produzindo registro e memória a partir das iniciativas registradas.

Em decorrência do cenário provocado pela pandemia do COVID-19, o edital também visa contemplar experiências de tecnologia social elaboradas para o enfrentamento do COVID-19.
As inscrições estão abertas até o dia 18 de junho de 2021. Para ter acesso a todas as informações e saber se possui os pré-requisitos, acesse o edital clicando aqui.

As experiências selecionadas se somarão àquelas já catalogadas e integrarão o Catálogo de Tecnologias Sociais 2021.

Para conhecer mais sobre o catálogo, acesse o link: http://tecnologiasocial.uff.br/?p=5699

 

Disponibilizamos em nosso site o artigo "Sujeição sanitária e cidadania vertical: Analogias entre as políticas públicas de extermínio na segurança pública e na saúde pública no Brasil de hoje", escrito pelo antropólogo e coordenador do INCT/INEAC Roberto Kant de Lima (UFF/UVA) e o Sociólogo Marcelo da Silveira Campos (UFGD e INCT/INEAC). Essa versão traduzida para o inglês e com a inclusão de alguns dados, foi publicada no site do Center of Brazil Studies na série One-Pager,  vinculado ao College of International Studies, The University of Oklahoma.

Confira o artigo no PDF abaixo em anexo.

 

 

Reproduzimos aqui o artigo "Sobre Tempo e Espaço em tempos de pandemia," escrito pelo antropólogo Ronaldo Lobão (UFF - INCT/INEAC) e publicado no Blog Ciência e Matemática do O GLOBO, no endereço https://blogs.oglobo.globo.com/ciencia-matematica/post/sobre-tempo-e-espaco-em-tempos-de-pandemia.html

Confira abaixo o artigo.

 

Sobre Tempo e Espaço em tempos de pandemia

10/05/2021 • 11:15

Ronaldo Lobão

 

Para começar, quero dizer que penso ser impossível generalizar as experiências das pessoas durante a quarentena. Como antropólogo, preciso da experiência empírica para olhar, preciso da interação com as pessoas para ouvir, de um certo distanciamento temporal para refletir sobre elas  de forma adequada. Tais atos cognitivos não devem ser confundidos com a ação dos órgãos dos sentidos correlatos, a visão e a audição, conforme nos ensinou Roberto Cardoso de Oliveira. Tenho certeza de que, em isolamento social, olhar e ouvir são impossíveis!

Mas posso, a partir de alguma teoria e de minha experiência pessoal, especular sobre algumas mudanças nas relações das pessoas com o tempo e com o espaço durante a quarentena, e também na perspectiva de um rearranjo das condições de trabalho que estão sendo chamadas de o “novo normal”.

Santo Agostinho registrou sobre o Tempo a seguinte confissão: “Se ninguém me pergunta, eu o sei; mas se me perguntam, e quero explicar, não sei mais nada”. Immanuel Kant resolveu este dilema de forma simples, Tempo e Espaço seriam categorias inatas do pensamento. Não necessitariam de definição.

Um geógrafo sino-americano, Y-Fu-Tuan, formulou ideias interessantes para os conhecer. A percepção do Tempo seria informada pelas mudanças em nosso estado interior. De alegre a triste; de atento a desatento; tenso ou calmo. Na sociedade moderna, temos o relógio para assinalar os intervalos entre estes estados. Mas Marshall Sahlins mostrou que a experiência do Tempo muda conforme nossas emoções. Se estamos alegres o Tempo passa vertiginosamente. Se estamos tristes o Tempo parece não “passar”. Há um desacordo com o relógio!

Também segundo Tuan, o Espaço nos é informado por nossos órgãos dos sentidos, sejam a visão, a audição, o tato e, eventualmente, o olfato. Aprendemos a medir a distância desde bebês através destes sentidos.

Já a sensação do movimento seria o resultado de uma relação entre o Tempo e o Espaço, tal como a Física mede a velocidade. O Espaço pode ser o resultado da experiência de nosso movimento em um dado período de Tempo, não?

Não é difícil pensar que, na situação de isolamento social em que vivemos, confinados em um mesmo espaço e restringidos em nossas possibilidades de movimento, temos uma percepção de Tempo e Espaço distorcida em relação à experiência que tivemos até aqui.

Roberto DaMatta sugeriu duas distinções que penso serem interessantes para ajudar a compreender o papel da dimensão emocional durante a pandemia atual. De um lado temos a diferença entre a Casa e a Rua. De outro temos as categorias sociológicas da Pessoa e do Indivíduo.

Fazendo algumas adaptações entre o pensamento desse autor, posso sugerir que a Casa seria o lugar da segurança, das relações pessoais, dos afetos. A Rua representaria o Espaço do risco, das regras impessoais, dos interesses individuais. Encontros duradouros fora de casa, sejam na rua, sejam no trabalho, têm o potencial de ampliar os lugares nos quais nos sentimos seguros, pois temos autonomia em decidir como nos comportar, podemos nos abrir afetivamente.

No ambiente da Casa estamos limitados às nossas experiências pretéritas para reconstruir emoções e sensações do que assistimos na tela de um computador, smartphone, tablet. Quem não assistiu a um show musical ao vivo não conseguirá rememorar as mesmas emoções ao assistir a um show no YouTube. Assim, vivemos em um ciclo repetitivo de nossas experiências pretéritas, limitado por excelência, e que  penso que em breve poderá trazer graves consequências, principalmente se for considerado um “novo normal”...

Porém não penso que a forma como estamos vivendo seja nem “nova”, nem “normal”. Avalio que há implicações nas restrições impostas pelo isolamento social que não afloraram mais claramente, pois temos um inimigo maior, que é o vírus, contra o qual acionamos todas nossas defesas. Mas ainda assim é possível fazer algumas ilações.

Por exemplo, na esfera da Casa sou uma pessoa que se relaciona com as pessoas da família e os lugares de uma determinada forma. Posso ser afetivo, controlador, bagunceiro, egoísta, etc. Minha identidade na Casa foi construída em relações com meus pais e irmãos e atualizada quando adulto em relação a meu companheiro ou companheira e filhos, animais de estimação, plantas, oficinas, etc.

Na sociedade contemporânea, na esfera do trabalho, sou um indivíduo que age em conformidade com o que é esperado e que foi aprendido fora do ambiente familiar. Por exemplo, eu não aprendi antropologia em Casa. Não aprendi a ser professor em Casa. Não aprendi a ser pesquisador em Casa.

Há uma trajetória riquíssima na construção deste personagem, o “trabalhador moderno”, aquele que vende sua força de trabalho no mercado. Mas na vertente que interessa a meu argumento, posso dizer que foi construída uma distância entre a identidade pessoal na Casa e a identidade coletiva no Trabalho. E a rua tem um papel fundamental como o espaço de um  ritual de passagem entre uma identidade e a outra.

Posso propor uma imagem. A pessoa sai de Casa, onde é um pai ou mãe dedicada, é um exemplo de vida para seus filhos e companheira ou companheiro. É uma liderança, é uma referência.

Mas quem chega no Trabalho? Imagine que nosso personagem trabalhe como faxineiro, igual a inúmeros que trabalham em empresas, que tenha um “trabalho subalterno”, para usar uma imagem de uma recente pesquisa no TRT/RJ. Há uma rotina a ser desempenhada em relação à qual ele não tem nenhuma autonomia. Sua voz sequer é ouvida e quando o é, é sempre de forma subalterna, quando não subserviente.

No final do dia ele chega em Casa. E quem chegou? O “subalterno”? Esperamos que não, certo? Quem chega em Casa é o pai, a mãe, o exemplo, o porto seguro.
Como acontece esta “mágica”? Gosto de pensar que é obra do “trajeto”, do deslocamento, do movimento pelo Espaço, pela Rua. O ritual de construção das identidades se processa no deslocamento em sentidos opostos. Da Casa, para a Rua e para o Trabalho. Do Trabalho, para a Rua e para a Casa.

A ausência destes rituais é certamente é o que é de mais “anormal” neste “novo” que, como disse, espero que seja fugaz e deixe poucas marcas. Mas avancemos um pouco mais. O exemplo que dei está situado em relações de trabalho que não se adequam a uma estratégia que tem se efetivado durante a quarentena, o tele trabalho, ou o trabalho em casa. Mas que têm sido saudados como elementos de um possível “novo normal”.

Vejamos um outro exemplo. Posso dar um exemplo pessoal. Trabalhei em uma usina siderúrgica, situada a duas horas de ônibus da zona sul do Rio de Janeiro. Havia diversas áreas chefiadas por engenheiros e eu tinha que lidar com todos eles. O chefe da área estratégica da empresa, a aciaria, responsável pelos fornos que produziam o aço, era de longe a pessoa mais intratável. No trajeto não falava com ninguém e, ao longo da jornada de trabalho, não socializava com os colegas em nenhum momento. A relações estratificadas eram a tônica do seu comportamento na empresa. Anos depois o encontrei em um pub em Ipanema. Veio me cumprimentar alegre, afetivo como nunca havia feito. Conversamos bastante e ele me disse que seu comportamento na empresa era daquela forma, porque era o que se esperava dele e ele tinha planos de crescer na empresa. Até que cansou do personagem e mudou de emprego. Era outra pessoa, e estava muito mais feliz!

Com o tempo entendi que o trajeto de ida era fundamental para ele e para todos nós construirmos nossas identidades funcionais no padrão que a empresa esperava. O trajeto de volta era fundamental para a desconstrução respectiva.

O que a pandemia fez? Eliminou esse ritual. Eu, o professor, estou em Casa, dando aula, pesquisando, trabalhando!

E “quem” trabalha? “Quem” está em Casa? Como consigo exercer estes dois papéis concomitantemente?

A resposta pode estar, como disse, em uma ameaça maior, lá fora. O vírus Covid-19 está na rua,  no trajeto! Assim, enquanto esse inimigo estiver lá, aceito esta supressão. Ponho o ritual, não a mim, em uma condição liminar, mesmo sendo ele um ritual de passagem.
Mas isso é bom? Certamente não. E espero que passe logo.
Mas, para concluir, não quero me colocar na posição de quem defende o “velho normal”, não, longe disso.

Mas...

Quero defender que a reflexão sobre as relações de trabalho inclua a reflexão sobre os processos de construção / desconstrução das identidades domésticas e profissionais.
Se o mundo do trabalho pode invadir o mundo da casa, por conta da pandemia, será que o mundo da casa, com outros tipos de relações interpessoais, não pode ser levado para o mundo do trabalho?

Se o ritual do deslocamento participa do processo de construção e desconstrução, ou reconstrução, de identidades pessoais, ele não pode ser um vetor de uma nova sociabilidade que torne mais equânime as relações tanto na casa quanto no mundo do trabalho?

 
 
 
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